Estou morrendo de saudade desse blog. Semana que vem vou postar tiras de novo, finalmente. Só preciso me organizar para escanear e dar um ar mínimo de civilidade aos desenhos rascunhados e meio amassados. Várias tiras tem personagens extrafamiliares que dão um tom mais leve às discussões políticas dos quadrinhos. Eles são, em minha opinião, os mais divertidos.
Enquanto a Família Institucional é predominantemente racional e ter apenas atributos humanos, o círculo social de amigos é surreal e boa parte deles tem poderes mágicos. Esses amigos aparecerão nas tiras que vou postar a partir da semana que vem, mas como ainda não as escaneei devidamente, posto agora algumas características:
BURÓCRA
Cozinha e cuida da casa da família institucional. Sente-se, e é, indispensável, embora passe o dia inteiro reclamando da vida.
MALAWI
Amigo da Radica, por quem ela é apaixonada, é um menino negro de origem Banto que mora com a família em Brasília e adora esportes radicais e todos os tipos de tecnologias, que não se restringem a computadores, mas incluem o que ele chama de tecnologias da alma e tecnologias espirituais.
JADELUA, ANARCOLOVE E SURFONLINE
Amigos da Radica, têm todos a mesma idade e se amam profundamente, mas estão sempre discutindo.
ENCRENCÃO E FONSECÃO
Amigos adolescentes do Massas, com quem ele montou um powertrio. Só pensam em música, vídeos, comida e mulheres, e principalmente, em serem maiores de idade para beberem legalmente.
MAIÊUTICA SOPHIA
Amiga da Radica, tem 17 anos, origem indígena e gosta de escutar aquarock. Dedica-se ao seu mundo interior pesquisando questões da alma e testando posturas e desenhos de divindades em seu próprio corpo, passando a maior parte do seu tempo fazendo posições de yoga, esculturas corporais e desenhando tatuagens. Adora perguntas desconcertantes, principalmente direcionadas a desconhecidos.
DELIRIUS ACADEMICUS
Amigo do Quadros, ninguém sabe sua idade ao certo, mas tem mais de 40 anos e toda vez que vai se formar na UnB, faz vestibular de novo para não sair de lá. Em geral não consegue se comunicar muito bem, e tende a não responder diretamente o que lhe perguntam.
SANTA PACIÊNCIA
Amiga da Dona Consta, com quem ela realiza a cerimônia do chá em silêncio toda semana.
MESTRE ZEN
Amigo do Vô Tório e marido da Santa Paciência.
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
quarta-feira, 21 de abril de 2010
Fazer ou não fazer som, eis a questão



Apesar do protagonismo dos políticos nas estruturas representativas e da raiva que muita gente tem de política em geral, essa historinha foi feita originalmente para discutir a relação entre democracia e o uso da palavra, ou seja, a associação entre democracia e logocracia (formato político no qual os que detém mais poder são aqueles de dominam o conhecimento racional, a retórica e a palavra, e o transmitem por meio de uma linguagem clara). E também para discutir o quanto a estrutura eleitoral periódica de quatro em quatro anos, tão usada para designar democracias contemporâneas, pouco tem a ver com a essência do que seria, em tese, uma sociedade democrática no sentido antigo ou no sentido radical, onde o debate e a participação direta em questões civis devem protagonizar a vida pública.
Sufrágio Universal

Originalmente, esses quadrinhos iam se chamar Sufrágio Universal e sua Família Institucional, mas era um nome grande demais. O Sufrágio Universal foi um dos primeiros personagens de quadrinhos que surgiram quando eu cursava o primeiro semestre de graduação em Ciência Política na UnB (antes outra personagem, Maiêutica Sophia já tinha aparecido na minha cabeça, ainda no segundo grau, e ela hoje faz parte do círculo social da família como amiga da Radica).
Sufrágio Universal é um menino calado e calmo, de 4 anos, fofo como o Vô Tório. Ele é esperto e inteligente, mas só fala de quatro em quatro dias. No restante do tempo, fica quieto vivendo sua vida, talvez porque tenha coisas mais interessantes para fazer do que ficar em função das demandas da família. Ele adora televisão e gosta de brincar com sua gata de estimação, Maioria Substantiva, que é toda malhada de várias cores, tem comportamento imprevisível e entra no cio todas as terças, quartas e quintas-feiras (que são os dias em que o Congresso Nacional tende a funcionar deliberativamente). Esta gata tem filhotes com muita frequência e todos têm o mesmo nome acrescido de uma número, Decisão no. tal, e o sobrenome de cada decisão/ filhote de gata é o número correpondente à sua ordem de nascimento, simbolizando o furor legislativo no Brasil e a responsabilidade formal da população por seus políticos (ver concepções sobre representação neste sentido em Hanna Pitkin). Além disso, a ideia de sufrágio universal como uma instituição que pode incentivar a população a se resignar à participação mínima está presente como crítica no pensamento de John Stuart Mill e explicitamente, como constatação de algo inevitável, na concepção elitista de democracia concorrencial em Joseph Schumpeter.
Sufrágio e Maioria são sempre seguidos por Marketing Político, um cachorro louco com olhos esbugalhados em forma de espiral hipnótico, que adotou o Sufrágio como dono e é eroticamente atraído pela Maioria. Marketing Político quer fazer filhotes em Maioria o tempo todo, esteja ela no cio ou não. Sem entender que são bichos de espécies diferentes, Marketing passa a vida tentando cruzar com a gata obcessivamente.
Radica

Quando estava desenhando a família institucional, a Radica se chamava originalmente Democracia Direta e Radical (está assim no desenho da genealogia da família), mas como a democracia direta antecede todas as instituições vivas da família, inclusive os próprios pais da Radica, o "Direta" fica só na certidão de nascimento, em homenagem a sua avó materna, Democracia Ateniense (e mesmo assim a idéia de democracia radical não se restringe ao âmbito instrumental de democracia direta, assembleísta, onde todos os participantes que serão afetados pelas decisões públicas são também os próprios tomadores de decisões).
A idéia contemporânea de democracia radical diz respeito principalmente à inclusão, à convivência e à expressão da diversidade e das diferenças de sociedades ocidentais modernas no mundo político. Essa idéia, em meu ponto de vista, revoluciona muito a vida pública, e inclusive o próprio conceito de política (ver Chantal Mouffe e Ernesto Laclau).
Quando desenhei a Radica e o Sufrágio, a questão das idades me agoniou um pouco, pois a idéia de sufrágio universal historicamente surge bem antes da democracia radical contemporânea que a Radica expressa, mas no final preferi priorizar o tema em detrimento da história nessa questão específica. Fazer um paralelo entre a idade do Sufrágio e a periodicidade das eleições no Brasil era mais importante, e além disso, seria bom que a Radica tivesse uma idade que permitisse um mundo interior relativamente mais independente de crianças de 10 anos. Nessas horas percebemos que, no mundo da imaginação, o rigor histórico pode acabar engessando a criação, e preferi permitir um pouco de flexibilidade às exigências que eu mesma criei (afinal, toda a família insitutucional tem inspiração teórica, quase na forma de tipos ideais ilustrados , mas obviamente não são literais e jamais poderiam substituir estudos acadêmicos, conceitos e teorias de fato e nem estudos sistemáticos, pois este não é um trabalho científico - é apenas uma forma de reflexão sobre política e humanidades em geral pela via dos desenhos).
Sobre a personagem, a Radica é muito livre, fala o que pensa, só anda descalça, de skate ou patins, e tem opiniões e vontades firmes - às vezes até demais. O que mais caracteriza sua personalidade é uma obsessão por questionamentos. Ela não lida bem com hierarquia e, pré-adolescente, contesta a mãe e o pai o tempo todo, mas de um jeito ingênuo e ainda infantil. Está sempre pronta para desafiar os irmãos mais velhos, com quem geralmente briga (seu irmão Quadros inclusive se refere a ela como "Autoengano") , e não esconde que tem mais carinho pelo Sufrágio. Tem cabelos ruivos enormes, esvoaçantes e cacheados. Embora esses quadrinhos ainda não tenham cor, os cabelos da Radica são laranja-fogo, representado o fogo do cerrado que renova as plantas (mas não é o fogo criminoso destrutivo às vezes vivenciamos por aqui). Além disso, esse tipo de cabelo é uma homenagem a Boudicca, rainha celta que sempre me impressionou desde a infância, e cuja vida e valores tribais afirmaram o poder feminino que foi praticamente destruído pela expansão do Império Romano. Embora não seja uma rainha ibérica ou africana ou indígena, as raízes de Portugal também tem origem celta (ver Raymundo Faoro). Assim, a história da Boudicca também aparece na Radica, mostrando a afirmação de uma minoria feminina em cenários políticos de hegemonia institucional masculina.
Por fim, Radica gosta de esportes radicais, é secretamente apaixonada por Malawi, um menino africano, e tem um casal de calangos de estimação, Palavrinha e Palavrão, que às vezes descansam em seus ombros. Esses nomes dos calangos reforçam o poder das palavras nas democracias e seu uso como instrumento político, e tematizam estereótipos de gênero.
Aniversário de Brasília: personagens preferidos e Mamawee
Hoje é dia 21 de abril de 2010, dia em que Brasília faz cinquenta anos.
Então em homenagem a Brasília posto meus dois institucionais preferidos, os mais novinhos: Radica e Sufrágio. Eles são publicados hoje junto às duas primeiras tiras. Embora tudo que está aqui por enquanto tenha sido finalizado em janeiro de 2005, escolhi uma historinha da Radica e do Sufrágio que tem a ver com o que Brasília tem de essencial, e outra do Massas e do Quadros que pode ser associada à nossa atual crise política do GDF-Arruda.
Mas hoje, principalmente, não posso deixar de homenagear meus pais aqui no blog, pois minha mãe veio para BSB em 1959, e cresceu junto com a cidade, e meu pai veio para cursar Medicina em 1965 na I turma da UnB, quando o DF ainda era só um quadradinho de poeira vermelha com árvores lindas e tortas no meio do nada. Minha mãe me ajuda desde o começo com este blog e sem o incentivo dos dois ele não estaria online :*
Vamos em frente então, e parabéns Brasília <3!!!
Paola.
Então em homenagem a Brasília posto meus dois institucionais preferidos, os mais novinhos: Radica e Sufrágio. Eles são publicados hoje junto às duas primeiras tiras. Embora tudo que está aqui por enquanto tenha sido finalizado em janeiro de 2005, escolhi uma historinha da Radica e do Sufrágio que tem a ver com o que Brasília tem de essencial, e outra do Massas e do Quadros que pode ser associada à nossa atual crise política do GDF-Arruda.
Mas hoje, principalmente, não posso deixar de homenagear meus pais aqui no blog, pois minha mãe veio para BSB em 1959, e cresceu junto com a cidade, e meu pai veio para cursar Medicina em 1965 na I turma da UnB, quando o DF ainda era só um quadradinho de poeira vermelha com árvores lindas e tortas no meio do nada. Minha mãe me ajuda desde o começo com este blog e sem o incentivo dos dois ele não estaria online :*
Vamos em frente então, e parabéns Brasília <3!!!
Paola.
segunda-feira, 19 de abril de 2010
Massas

Partido de Massas, ou Massas, nasceu minutos depois de Quadros e em muitos aspectos é o oposto do irmão gêmeo, embora tenha o mesmo gênio da onipotência.
Os partidos de massas, na perspectiva de Duverger, surgem com a ampliação da participação eleitoral e nascem fora do parlamento, embora tenham como objetivo a eleição aos cargos legislativos, buscando espaço de expressão na sociedade pela via eleitoral. Os partidos de massas têm em geral uma essência socialista, e além de buscarem representar as classes excluídas, têm o objetivo de ser fonte de identidade para o maior número possível de pessoas e grupos da base eleitoral, o que apresenta um dilema, pois o fortalecimento dos partidos de massas pode tanto distanciá-los de suas identidades originais de classe trabalhadora, quanto aproximá-los de uma ideia diluída de massas indiscriminadas (ver Adam Przeworski).
Neste sentido, os partidos de massas são acusados de gradualmente tornarem-se tão elitistas quanto os partidos de quadros, e voltarem-se cada vez mais para a busca do poder do estado e para as questões eleitorais, perdendo o vínculo com a base popular e principalmente o ideal de superar as diferenças sociais em nome de uma manutenção de seus quadros ;-) no poder (para uma reflexão sobre elitização de partidos de massas, ver lei de ferro das oligarquias elaborada por Robert Michels, em Sociologia dos Partidos Políticos).
Nesse sentido, embora tenham origens históricas diferentes, partidos de massas e partidos de quadros buscam igualmente o poder do estado (na família institucional, representado pela figura do pai deles, Seu Nácio) e disputam igualmente a representação política (a mãe deles, Dona Represa). Assim, além dos gêmeos tematizarem a ideia contemporânea de que partidos buscam ocupar o lugar do Estado, também trazem um conteúdo edipiano
Como personagem nesse blog, assim como seu irmão Quadros, Massas também adora comer, mas diferente do irmão solitário, só anda em bandos. Ele tem dois amigos que o visitam frequentemente - Encrencão e Fonsecão, que gostam de aparecer na casa dos institucionais principalmente em horários de refeições.
Por fim, Massas adora shows e shoppings, tem várias namoradas ao mesmo tempo e vive se metendo em confusões para gerenciá-las, sem que uma saiba da existência da outra. Usa blusas com nomes de bandas, frases de efeito ou gritos de platéia, e adora videogames e esportes coletivos.
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